TEAF (Transtorno do Espectro do Álcool Fetal) e Aprendizado Escolar: o que pais e educadores precisam entender 

O que é o Transtorno do Espectro do Álcool Fetal (TEAF)?

 

O Transtorno do Espectro do Álcool Fetal (TEAF) é um conjunto de alterações no desenvolvimento causadas pela exposição ao álcool durante a gestação. Ele pode afetar o cérebro, o comportamento, a aprendizagem e, em alguns casos, o corpo da criança.

É considerado um transtorno do neurodesenvolvimento, com manifestações muito variadas: algumas pessoas apresentam sinais físicos, mas muitas têm apenas dificuldades cognitivas e comportamentais — o que torna o diagnóstico mais difícil .

 

Qualquer dose de álcool pode causar TEAF?

 

Sim. Não existe uma dose segura de álcool durante a gestação.

 

O álcool atravessa a placenta e atinge diretamente o feto. Mesmo pequenas quantidades podem interferir no desenvolvimento do cérebro, especialmente dependendo do momento da gestação e do padrão de consumo.

 

Quanto maior a quantidade e mais concentrado o consumo (como episódios de binge drinking), maior o risco de danos — mas exposições leves também podem causar prejuízos.

 

Qual a diferença entre SAF e TEAF?

 

  • TEAF é o termo amplo que inclui todas as alterações causadas pela exposição ao álcool na gestação.
  • SAF (Síndrome Alcoólica Fetal) é a forma mais grave dentro desse espectro.

A SAF apresenta:

  • alterações faciais típicas
  • atraso de crescimento
  • alterações cerebrais
  • prejuízo cognitivo e comportamental

Já no TEAF, muitas pessoas não têm alterações físicas visíveis, mas apresentam dificuldades importantes no aprendizado, comportamento e funcionamento diário.

 

O TEAF pode afetar o aprendizado escolar?

 

Sim — e de forma significativa.

 

Crianças com TEAF frequentemente enfrentam dificuldades escolares importantes, mas muitas vezes não são reconhecidas como tendo um transtorno do neurodesenvolvimento.

 

Por que o TEAF é considerado “invisível” na escola?

 

Porque muitas crianças não apresentam sinais físicos.

Por isso, elas são frequentemente vistas como:

  • desatentas
  • preguiçosas
  • desmotivadas
  • indisciplinadas
  • impulsivas

Isso leva a:

  • punições frequentes
  • dificuldades de inclusão
  • trocas de escolas
  • altas taxas de suspensão, expulsão e abandono escolar

Quando não há diagnóstico, o comportamento é interpretado como “problema de atitude”, e não como uma condição neurobiológica.

 

 

Quais são as principais dificuldades acadêmicas no TEAF?

 

O quadro é variável, mas pode incluir:

 

📚 Aprendizagem e memória

  • dificuldade para aprender conteúdos novos
  • esquecimento frequente
  • dificuldade de reter informações

🔢 Matemática

  • grande dificuldade em cálculo
  • dificuldade com raciocínio lógico
  • problemas com noção de quantidade e números

📖 Leitura e escrita

  • dificuldades na leitura
  • erros na escrita e ortografia
  • dificuldade de compreensão de texto

🧠 Atenção

  • dificuldade de manter o foco
  • distração frequente
  • dificuldade de organizar tarefas

🧩 Funções executivas

  • dificuldade de planejamento
  • dificuldade de organização
  • impulsividade
  • dificuldade de resolver problemas

🗣 Linguagem

  • vocabulário reduzido
  • dificuldade de compreensão
  • problemas na construção de frases
  • dificuldade narrativa

👁 Habilidades visuoespaciais

  • dificuldade em copiar
  • problemas com geometria
  • dificuldade em organizar informações visuais

 

Existem outras dificuldades além da escola?

 

Sim. O TEAF é uma condição ampla.

Pode haver:

  • associado ao TDAH
  • ansiedade
  • depressão
  • transtorno opositor
  • transtorno de estresse pós-traumático
  • dificuldades sociais
  • maior risco de uso de substâncias

Além disso, crianças com TEAF têm maior exposição a experiências adversas na infância, o que agrava os desfechos ao longo da vida.

 

Qual a prevalência do TEAF?

 

O TEAF é mais comum do que se imagina.

Estudos mostram:

  • até 24 a 48 por 1.000 crianças em idade escolar
  • podendo chegar a quase 10% em algumas populações (May et al., 2014; 2018)

Ou seja, é um problema relevante de saúde pública — mas ainda subdiagnosticado.

Existe tratamento?

 

O tratamento do Transtorno do Espectro do Álcool Fetal (TEAF) deve ser individualizado, pois se trata de um quadro amplo e heterogêneo, com diferentes perfis de funcionamento cognitivo, comportamental e adaptativo.

As intervenções devem ser eficazes com objetivo de melhorar significativamente o desenvolvimento e a qualidade de vida. O manejo baseia-se na identificação das necessidades específicas de cada indivíduo e na construção de um plano terapêutico integrado.

Esse cuidado envolve, dependendo do caso:

  • fonoterapia, com foco em linguagem e comunicação
  • acompanhamento psicológico
  • terapia ocupacional, especialmente para autorregulação e habilidades adaptativas
  • psicopedagoga e reforço escolar
  • seguimento médico
  • adaptações e intervenções no ambiente escolar

Além das terapias, o suporte familiar e escolar é fundamental para promover um ambiente estruturado, previsível e acolhedor.

 

O diagnóstico precoce e a intervenção adequada são os fatores mais importantes para reduzir prejuízos e favorecer o desenvolvimento ao longo da vida.

 

Como a escola deve lidar com o TEAF?

 

A escola tem um papel fundamental no desenvolvimento e na inclusão de crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro do Álcool Fetal (TEAF).

 

As estratégias devem ser individualizadas, considerando as necessidades de cada aluno. De forma geral, algumas medidas são especialmente importantes:

  • adaptar o ensino, reconhecendo que não se trata de falta de esforço
  • utilizar linguagem simples, com instruções claras e repetidas
  • oferecer apoio específico em matemática e em atividades visuoespaciais
  • usar recursos visuais para facilitar a compreensão
  • dividir tarefas em etapas menores e evitar enunciados longos
  • oferecer mais tempo para a realização das atividades
  • verificar ativamente a compreensão de enunciados, textos e tarefas
  • considerar o uso de apoio individual, como auxiliar ou ledor, quando necessário
  • reduzir a sobrecarga cognitiva
  • manter uma comunicação próxima com a família e a equipe de saúde

O foco deve estar na inclusão, adaptação e compreensão do funcionamento da criança, e não na punição do comportamento.

Como é a vida adulta de quem tem TEAF?

 

Sem suporte, pode haver:

  • dificuldades profissionais
  • problemas de saúde mental
  • dificuldades de autonomia
  • maior risco de uso de substâncias

Mas, com diagnóstico e apoio adequados:

  • é possível desenvolver autonomia
  • construir relações
  • ter vida produtiva 

Conclusão

 

O TEAF é uma condição frequente, invisível e muitas vezes mal compreendida.

Ele não é falta de esforço, nem problema de comportamento — é uma condição do neurodesenvolvimento.

A boa notícia é que:

  • é 100% prevenível (sem álcool na gestação)
  • e, quando identificado precocemente, é possível intervir e melhorar muito a qualidade de vida

Mais do que tratar, é fundamental reconhecer, acolher e adaptar.

Referências bibliográficas

 

  • https://www.nofas.org/ - National Organization on Fetal Alcohol Syndrome
  • Mattson SN, Bernes GA, Doyle LR. Fetal Alcohol Spectrum Disorders: A Review of the Neurobehavioral Deficits Associated With Prenatal Alcohol Exposure. Alcohol Clin Exp Res. 2019 Jun;43(6):1046-1062. doi: 10.1111/acer.14040. Epub 2019 May 2. PMID: 30964197; PMCID: PMC6551289.
  • American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 5th Washington: American Psychiatric Association, 2013.
  • https://www.spsp.org.br/teaf/ - TEAF - Sociedade de Pediatria de São Paulo
  • Kautz-Turnbull C, Rockhold M, Handley ED, Olson HC, Petrenko C. Adverse childhood experiences in children with fetal alcohol spectrum disorders and their effects on behavior. Alcohol Clin Exp Res (Hoboken). 2023 Mar;47(3):577-588. doi: 10.1111/acer.15010. Epub 2023 Feb 21. PMID: 36811189; PMCID: PMC10050124.
  • Hoyme HE, Kalberg WO, Elliott AJ, Blankenship J, Buckley D, Marais AS, et al. Updated clinical guidelines for diagnosing fetal alcohol spectrum disorders. Pediatrics. 2016 Aug; 138(2): e20154256. DOI: 10.1542/peds.2015-4256.
  • https://www.migalhas.com.br/depeso/435035/neurociencia-e-teaf-o-que-o-sistema-de-justica-precisa-saber

Dra. Mônica Elisabeth Simons Guerra

CRM-SP 109056 | RQE 24850
Otorrinolaringologista e Foniatra

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A Dra. Mônica Elisabeth Simons Guerra atende na Clínica Pro ORL em parceria com a Clínica La Vie. Localizado entre as estações de metros Ana Rosa e Paraíso. No local tem estacionamento próprio. 

 

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